Eu, você, e todo mundo em “Casa Grande”

Você já ouviu falar de “Casa Grande”? Caso não, você tem tempo ainda – o filme está em cartaz em São Luís. Não saber que o filme tem sido considerado uma das melhores produções brasileiras dos últimos anos e tem agradado a maioria dos críticos em nada compromete este post. Muito pelo contrário. Seja bem-vindo ao mundo polêmico e verdadeiro de “Casa Grande”.

CasaGrande_posterConfesso que eu, o autor deste post, nem sabia da existência deste filme. Apenas o cartaz (um jovem sentado na janela e uma mulher nua deitada na cama) era familiar para mim. Porem, só os segundos iniciais desta produção de Fellipe Gamarano Barbosa já prendeu a minha atenção – um plano-sequência que apresenta o “personagem-título” do filme.

Em resumo, o longa conta história de um casal, Sônia, interpretada por Suzana Pires, e Hugo, vivido pelo aqui surpreendente Marcello Novaes, que, apesar de pertencerem à alta burguesia do Rio de Janeiro, começam a perder sua tranquilidade quando toda a sua fortuna vai sumindo. Paralelo a isso, acompanhamos o cotidiano de Jean, interpretado por Thales Cavalcanti, que, a princípio, não sabe dos problemas dos pais e tem dificuldades de expressar suas opiniões e liberdades com os pais.

A forma como Fellipe Barbosa aborda os temas é que torna o filme interessante. E te põe, imediatamente, na narrativa. “Casa Grande” consegue, de uma forma bem ampla, por vezes irônica, mas sempre afiada, debater a luta de classes, sem ser didático – pecado quase sempre visto nas telenovelas.

CasaGrande02O debate, sempre consistente, parece atual, ponto que salienta uma curiosidade do próprio roteiro – ele foi feito há oito anos. Isto é, algumas dúvidas e embates pelas quais o país passa continuam tão atuais quanto eram na década passada. E Fellipe Barbosa justifica toda esta discussão com a presença de personagens de apoio que não estão ali à toa – cada um pertence, exclusivamente, à um problema visível e sempre temas de rodas de conversa Brasil afora, como nos empregados, na namorada “de cor parda e pobre” de Jean (os termos fazem referência a um dialogo do filme) e nos seus amigos do colégio São Bento.

Mas por que eu, você e todo mundo estamos em “Casa Grande” mesmo? Porque todos nós somos o que o filme se propõe a fazer: debate. Somos a opinião, a quarta parede, aqueles que observam estes problemas e discutem sobre todos eles, seja no Facebook, na rua, no protesto, no quarto…Estamos sempre debatendo. E, por vezes, este mix de opiniões aparecem no longa, sempre mostrando ambos os lados, das visões mais liberais até àquelas mais conservadoras.

Mesmo que seja inspirado em “Casa Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, e venha trazendo inúmeras comparações ao elogiado filme de Kleber Mendonça Filho, “O Som ao Redor”, “Casa Grande” é único: ele tece críticas sutis as questões políticas, econômicas e sociais que o Brasil passa e consegue, assim, mostrar que tudo é capaz de ser debatido, seja com estupidez, com inteligência, com liberalismo, com conservadorismo. O importante é sempre por em debate.