João Almeida (O Pé de Feijão) e a arte de espalhar amor com tipografia e intervenção

Se você já andou pelas ruas de São Luís, capital do Maranhão, pode ter se deparado com boas intervenções nas paredes velhas de prédios e casas da cidade ou alguns elevados. A cidade respira um movimento de ocupar os espaços públicos e intervir com o objetivo da cidade dialogar com sua população e vice-versa. É um caminho e ideias de pessoas inquietas estão se mobilizando afim de transbordar opinião, conceitos e atitude (em breve traremos vários materiais a respeito).

E uma dessas pessoas é o João Almeida, ou, mais conhecido como O Pé de Feijão. Ele é um artista que faz intervenções em tipografia com o objetivo de espalhar amor. E, apesar de estar vivendo em São Paulo e estudando arte, ele vive fazendo ponte aérea com a capital maranhense. E é com ele que batemos um papo que misturou curiosidade, reconhecimento e arte.


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Prazer, João! (Foto: Arquivo Pessoal)

Sobre O Tatame: Quem é o João Almeida? 

João: Um cara hiperativo, com 31 anos nas costas, mas com cara e alguns gostos ainda de 20! (hahaha!)

Vim de um interior do Maranhão chamado Luís Domingues. Me formei em Artes Visuais na UFMA, hoje curso Cenografia e Figurino na SP Escola de Teatro em São Paulo.

Tem uma frase da Maria Bethania que tomei pra mim: “Porque eu sou artista e enquanto eu tiver calor e emoção continuarei sendo artista. Quando isso fugir de mim, eu não sou nada!


Sobre O Tatame: O que é arte pra você?

João: É indefinição, mas, também, parece ser a existência física e sensorial de tudo aquilo que nós não conseguimos explicar só com palavras e que vêm de dentro de nós, dos nossos pensamentos. O mais engraçado é que, ultimamente, uso palavras para me expressar artisticamente… viu como a Arte é indefinição?! Porém é bela! E feia, suja, magnífica, catártica, nojenta, emocionante…


Sobre O Tatame: Influências, de onde elas vêm e sua expressão em meio a isso.

João: De tudo! Mas sempre há aquelas que se fazem mais presentes, como minhas vivências no interior, das pessoas da minha família, tenho muitos trabalhos em que o regionalismo me inspira.

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“Mais amor, menos selfie” (Foto: Arquivo Pessoal)

Outras fontes que sempre estou revendo são os movimentos de Arte como o Surrealismo, o Art Noveau, o Rococó, o Impressionismo, arte oriental… Pra mim tudo é fonte de inspiração, por isso posso passear por diversas linguagens artísticas.


Sobre O Tatame: De onde veio a ideia de intervir na cidade?

João: Bem, sempre achei o graffiti uma linguagem maravilhosa e sempre me instigou trabalhar com o espaço urbano, mas ainda não sabia como, até que comecei a experimentar mais a tipografia , o lettering e a caligrafia artística, foi quando decidi sair do papel e partir para a rua. Acabei juntando três estudos diferentes no suporte urbano: a ideia de falar sobre o amor, algumas colagens (que só aparecem no começo das minhas intervenções) e a tipografia.

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“Não me obrigue, me abrigue” (Fotos: Arquivo Pessoal)

Explorar o espaço urbano com tipografias me fez viver a arte de uma forma mais instigante, emocionante… Comecei a explorar mais os espaços deteriorados, aparentemente abandonados e, também, locais de maior fluxo de pessoas, para que as frases pudessem reverberar.

Percebi nesse processo que mais uma linguagem aparecia, a performance. O fato de eu levar meu corpo aos espaços, a forma com que trabalho os gestos para escrever e até o risco que corro nas ruas acaba por gerar uma performance a cada intervenção criada.


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(Foto: Arquivo Pessoal)

Sobre O Tatame: São Luís, o que precisa para viver mais isso? 

JoãoPrecisa apenas de artistas que se arrisquem a mostrar seus trabalhos de qualquer forma, em qualquer espaço, explorando ao máximo todos estes. Só assim as demais pessoas começarão a se interessar, a se questionar, a falar mais sobre Arte em São Luís. Não ter medo de arriscar na arte é o que faz com que o trabalho cresça, se aprimore, ganhe mais vida e passe para outros, se prolifere.








Sobre O Tatame: Como lidar com feedbacks?

João: Da melhor forma que eu sei: aceitando-os como parte que constrói meu trabalho.

Todos os feedbacks que chegam me ajudam ou a melhorar o que já estou fazendo ou mesmo criar algo novo. Já dizia Lavosier: “Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.


Sobre O Tatame: Quais os próximos projetos?

João: Caramba, tenho tanta coisa em mente. Tô há um tempão elaborando uma grande exposição sobre a temática do Amor, com esculturas, pinturas e outras mídias, mas ainda não sei quando vai sair. Tô pensando em fazer um livro com minhas tipografias também. Mas sabe de um plano que eu tô querendo realizar mesmo agora?! Ser o secretário de cultura do interior onde eu nasci, hahaha, não é campanha, mas já tenho um trabalho com cultura lá faz bastante tempo, muita gente sabe que eu amo cultura também e eu gostaria de ter essa oportunidade de realizar alguns projetos na área lá, já que já vi e realizei bastante coisa em outros lugares, acho que seria o momento de retornar tudo o que aprendi para a minha cidade, eu curto muito repassar conhecimentos adiante e formar novas “proliferadores” da arte, talvez tendo esse espaço eu conseguiria realizar esses projetos.

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“Amor” (Foto: Arquivo Pessoal)

 

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  • Letícia Lima

    Algumas coisas despertam em nós um certo sentimento de leveza, coisas que simples mesmo. O trabalho do João tem essa capacidade.
    Amo passar ali pela parte velha da cidade e ficar imaginando o tanto de histórias que aquelas ruas já viram. Outro dia, dentro do ônibus, eu estava pensando exatamente nisso quando vi essas intervenções. Achei INCRÍVEL. Sabe quando você tá viajando em ideias e olha algo que parece que veio na hora certa pra dizer “Relaxa! Ainda há esperança”? Foi isso que essa obra me trouxe.
    Não conhecia o artista até olhar aqui no blog. Então deixo meus parabéns à equipe do Sobre o Tatame pelo belíssimo trabalho que vocês tem feito. Considero super importante essa divulgação que vocês fazem das coisas locais. Não parem, por favor! Haha 😉

    • @disqus_IDgVV9RKCh:disqus, que comentário lindo!

      Desde que reorganizamos as ideias, ficamos pensando diariamente como levar algo agregador e informativo sobre coisas bacanas que estão por aí. E o trabalho do João é um desses “cases”, saca.

      Comentários como o teu só traz mais ânimo para continuar levando algo assim e melhor.

      Uma pergunta, tu és de São Luís também?

      Um abraço!

    • Letícia Lima

      Sim, sou de São Luís!
      Acho massa essa coisa de falar mais da cidade. São Luís tá precisando muito desse UP que vocês dão quando contam histórias ou falam de projetos como esse e tantos outros. Percebo que falta muito amor dos próprios habitantes pela cidade, sabe? Por isso fico felizona quando vejo essas coisas.

  • Mariana Julio

    Toda forma de arte nos permite esquecer, por pelo menos um instante, esse caos que vivemos. E isso é maravilhoso! Parabéns!