Mulheres da Imagem: a fotografia enquanto objeto de luta

Na última sexta (13), estivemos presente na 1ª Ação Coletiva: Mulheres da Imagem, que é um movimento que valoriza e evidencia a presença da mulher em espaços majoritariamente masculinos, dentre eles, a fotografia e o cinema. O objetivo também é trazer em voga, discussões acerca do poder da coletividade, do amor enquanto objeto político, especialmente nos dias de hoje que se vive em um contexto de individualismo e ódio gratuito.

O evento foi realizado simultaneamente em várias cidades brasileiras, como São Paulo, Florianópolis, Aracaju, Belo Horizonte, Curitiba, Cutia, Londrina, Macapá, Maceió, Paraty, Porto Velho, Rio de Janeiro e Rio Branco.  Aqui em São Luís, o evento ocorreu no Chico Discos.

A programação teve como ponto alto exibições de fotografias e curtas, roda de conversa e convite ao engajamento na criação da Associação Brasileira das Mulheres da Imagem.

No início, houve a leitura do texto manifesto, escrito pela Ana Mendes, gaúcha e fotojornalista, sendo uma das responsáveis pelo evento em São Luís, no qual explica o porquê dessa ação coletiva:


Bem-vindas e bem-vindos à Primeira Ação Coletiva da Associação Brasileira das Mulheres da Imagem. Neste momento, 13 cidades realizam este mesmo evento: Aracaju, Belo Horizonte, Curitiba, Florianópolis, Londrina, Macapá, Maceió, Paraty, Porto Velho, Rio de Janeiro, São Luís do Maranhão, São Paulo e Rio Branco. No domingo, acontecerá no povoado de Cutia, município de Boninal, no sertão da Bahia. Colocamos o evento de pé em 4 semanas, desde a convocatória até chegarmos ao momento de olharmos nos olhos de vocês. Obrigada por terem vindo.

Somos mulheres – e pessoas do gênero feminino – tecendo o fio de uma rede que sempre existiu. Associadas, no sentido literal do termo, nós sempre estivemos, mas agora o novelo desse tecido se imprime em cores e texturas visíveis. Desdobramos aqueles encontros fortuitos nos festivais de fotografia, nas coberturas fotográficas/videográficas, no cafezinho da esquina e nos corredores da firma, em um movimento nacional. Temos uma jornada longa pela frente e seguiremos com serenidade, um passo de cada vez.

As conversas em torno da criação da nossa Associação acabaram de começar, foi logo ali, em outubro, com a presença de três mulheres. Chegamos à casa dos 4 dígitos no grupo do Facebook, somos algumas dezenas pelo Brasil dividindo tarefas para realizar este evento. Essa nossa fala, aqui, hoje, também é um convite ao seu engajamento.

Porque uma Associação só de mulheres? Muita gente pergunta.

Nossa resposta é: E por que NÃO uma associação só de mulheres?

Vocês já pensaram por que causa tanto espanto quando as mulheres se reúnem em grupos?

Compartilhamos anseios comuns em uma profissão marcadamente masculina, hetero e branca. Cavamos nosso espaço com as próprias mãos e isso é bonito, é admirável! Mas, também pode ser injusto, como acontece em tantas outras profissões. Por isso, buscamos uma representatividade legal para participarmos, enquanto mulheres, de discussões relevantes para o país, com ou sem uma câmera na mão.

Apesar de sermos maioria numérica na população brasileira, ainda insistem em nos transformar numa minoria social.  Nos unimos não para lutar por direitos trabalhistas da nossa categoria. Não é só isso. Propomos debater questões de caráter social e político, temas que mexam com os ânimos da sociedade como um todo. Queremos ocupar o espaço que é nosso por direito: um espaço de fala e com poder de decisão.

Os homens, nossos colegas de profissão, não são, obviamente, o alvo das nossas críticas. Ao contrário, são nossos parceiros e nos entusiasmamos com o apoio masculino. Agradecemos.

A Associação Brasileira das Mulheres da Imagem quer estimular as próprias mulheres a olhar ao seu redor e enxergar as outras mulheres como companheiras, a olhá-las com empatia. Muitas vezes, somos invisíveis para nós mesmas. Não sabemos quantas somos. Não há estatísticas sobre nós. Também não sabemos por quais cantos deste imenso país estamos com os pés fincados. Os encontros para construirmos esse sonho tem acontecido aos poucos, de cidade em cidade, há apenas 3 meses. É um trabalho de formiguinha que tem encontrado cada vez mais gente disposta a arregaçar as mangas. E só assim será possível. Juntas, de mãos dadas, lado a lado.

Neste momento de profundas mudanças políticas, sabemos que queremos estar juntas, que desejamos usar a ferramenta da qual dispomos, a IMAGEM, para olhar para outras mulheres, não apenas as da nossa categoria profissional, mas todas elas. E também olhar para as crianças, para os jovens, os idosos, para as minorias que são atacadas em seus direitos civis, sociais, trabalhistas, que são violadas em seus Direitos Humanos.

Para isso, não nos faltarão vontade, garra, inspiração e amor.

O AMOR que será o tema da projeção de hoje e reúne trabalhos de fotógrafas e videastas brasileiras que responderam ao chamado de uma convocatória com este mesmo título: AMOR.

Se ainda restam dúvidas quanto às motivações para a criação dessa Associação, duas fotógrafas respondem com seus poemas: Nana Moraes e Luiza Nobre. 

POR QUE SÓ MULHERES?

Poema de Nana Moraes, fotógrafa, Rio de Janeiro

 

Talvez, porque, como diz Rita Lee, sangramos todo mês.

Ou, porque quando nos insurgimos nos julgam como histéricas.

Ou, porque histeria tenha sua origem na palavra grega (στέρα) útero.

Ou, porque trabalhamos carregando nossos filhos no ventre e depois de cumprido o direito à licença maternidade temos que lutar por nossos empregos.

Ou, porque sofremos constantes assédios.

Ou, porque a cada onze minutos uma mulher é estuprada em nosso país.

Ou, porque é urgente combater todo tipo de violência às mulheres.

Ou, porque vivemos sob um mercado discriminatório.

Ou, porque a maioria das mulheres são responsáveis pelo sustento das famílias.

Ou, porque somos desqualificadas por nossa força física.

Ou, porque, ocupamos espaço na população economicamente ativa do Brasil.

Ou, porque uma ínfima minoria atua em altos cargos .

Ou, porque a condição feminina no mercado de trabalho está longe de vencer a desigualdade.

Ou…Porque esse grito é nosso!

 

IMAGEM

Poema de Luiza Nobre, estudante de jornalismo e fotógrafa, Macapá.

 

Não lembraram de perguntar à Monalisa se ela gostou do que viu.

Em corredores infinitos de molduras

Elas estão despidas

Estáticas

Sob os olhos do pintor.

Veneradas

As mulheres entram nas galerias

Como musas santificadas

Como Vênus De Botticelli ou de Milo.

Como Dora Maar,

Que foi poeta, pintora e fotografou.

Mas ficou conhecida como amante do Picasso

Nos rodapés dos livros

Com o colo cheio de gatos

No cubismo do amado.

Não lembraram de perguntar à Monalisa se ela gostou do que viu.

Como Lee Miller

Que largou a moda

Pra fotografar guerra

Mas ficou lembrada como

A que se lava na banheira do ditador.

Como Clara Peeters

Que escondia autorretratos

Na natureza-morta

Dos seus quadros

E no anonimato atrás da cor.

Não lembraram de perguntar à Monalisa se ela gostou do que viu.

Não lembraram de Pagu

Como pioneira dos quadrinhos

Mas não esqueceram seu relacionamento com Oswald de Andrade

Não lembraram de Tarsila

Com a antropofagia

Da figura essencialmente brasileira

Nas obras de arte.

Não lembraram de perguntar à Monalisa se ela gostou do que viu.

Não lembraram de Petra Costa

Que usou o cinema

Para mergulhar em si

Não lembraram Nair

Nas manifestações de 70

De um país em turbulência

Não lembraram de Nan Goldin

Que se olhava machucada

Todos os dias

Pra falar da violência

Não lembraram de perguntar à Monalisa se ela gostou do que viu.

Quem são as mulheres por trás das imagens?

Eu me pergunto enquanto não me reconheço nos femininos das telas

De um retrato tão cheio de idealismo

De moças angelicais e belas.

Quem são as pessoas que produzem as imagens?

Que levantam o espelho convertendo além de luz

Formando os reflexos dos corpos habitado por elas.

Quem, entre nós, teve a audácia de

De quebrar a barreira

Onde só os homens assinam

E finalmente protagonizou

O que realmente se vive sendo mulher.

Não sendo essa miragem

Sem foco

Mas sendo o que se é.

E eu gosto do que vejo

Quando olho para todas elas

Numa semiótica

De reconhecimento

No semblante alheio.

Convicta de que a imagem

Tem nosso nome

Nosso rosto

Nossa história

E nosso viés. 

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