Mulheres na Música – A resistência feminina no Samba

No processo de construção desse texto, fizemos uma pesquisa sobre o tema procurando algo que nos desse o gancho necessário para que a escrita fluísse. Coloca uma música aqui, lê uma matéria ali, assiste um documentário acolá, mantém a cervejinha para diminuir a tensão e foi nesse momento que rolou aquele insight de irmos direto ao ponto, já trazendo o x da questão. Cantemos, pois, os trechos de um samba, composição de 1975 que, nós sabemos, muitos gostariam de cantar hoje.

“…Mulher preguiçosa, mulher tão dengosa, mulher. Você não passa de uma mulher (ah, mulher). Mulher tão bacana e cheia de grana, mulher, você não passa de uma mulher (ah, mulher) …

…Olha a moça inteligente, que tem no batente o trabalho mental, QI elevado e pós-graduada, psicanalizada, intelectual, vive à procura de um mito, pois não se adapta a um tipo qualquer, já fiz seu retrato, apesar do estudo, você não passa de uma mulher (viu, mulher?) …”

E nós vamos falar sobre o quê, afinal? Sobre elas, AS DO SAMBA!

Não há como negar que o samba é, ainda, um território habitado hegemonicamente pela figura masculina. E que as mulheres ocuparam por um longo tempo o lugar de objeto em suas letras e batuques, mas não começou assim. Para que o samba fosse o que é hoje, um símbolo da cultura afro-brasileira, alguém teve que fazer resistência no comecinho do século passado, e foram elas: as Tias Baianas, Mulheres, Negras, que acolheram o ritmo em seus quintais quando as manifestações culturais públicas eram símbolo de vadiagem no Rio de Janeiro, local em que o ritmo se consolidou.

Justo seria, pela história e igualdade, que esse lugar de importância fosse mantido, mas veja só: Mulheres negras cantando samba? Opa! Calma lá, rápido demais. Mulheres sambando na roda? É, isso pode!  Mulheres tocando na roda? Tem calma, moça, sem pressa. Globeleza sambando pelada? É arte. Mulheres “objetificadas” nas letras? É, não é de todo ruim, vamos chamar de licença poética.  E o samba, que sempre foi símbolo de resistência negra, foi colocando a mulher, negra principalmente, em um lugar menos acessível, mais um acessório do que a parte ativa, e o machismo – hora velado, hora exposto – estava lá, sempre presente.

Você vai dizer que os tempos mudaram, e mudaram mesmo, mas a custa de quantas vozes caladas, de quanta negação para que elas chegassem um pouco mais perto do “Lugar de Mulher é Onde Ela Quiser”? E nesse mês do dia internacional da mulher, trazemos cinco mulheres do samba em homenagens a essas que fizeram história e resistência.

Tia Ciata

Foto: Reprodução

Hilária Batista de Almeida, mais conhecida como Tia Ciata, principal nome das Tias Baianas, talvez uma das maiores influências femininas na consolidação do samba. Vinda de Salvador, Bahia, quituteira, mãe de quatorze filhos, iniciada como mãe de santo, recebeu em seu quintal, nos saraus, grandes compositores e lhes deu a chance de produzir o samba. Esteve à frente do seu tempo. Com garra e subversão perpetuou seu nome na história das mulheres e do samba.

Dona Ivone Lara

Foto: Reprodução

Primeira mulher compositora. Já cresceu respirando samba e foi seu tio quem lhe ensinou a tocar cavaquinho aos 12 anos de idade. Quando mudou-se para Madureira entrou na Escola de Samba Prazer da Serrinha, mesma época em que começou a compor, mas o preconceito com mulheres sambistas na época, não permitia que as letras levassem seu nome. Quem assinava como autor das letras era seu primo, Fuleiro, que também era compositor. Hoje, consagradíssima no samba, é um expoente de voz espetacular e merece a homenagem. Deixa um dos nossos sambas preferidos para quem não conhece Dona Ivone Lara.

Sorriso Negro, Dona Ivone Lara

Beth Carvalho

Foto: Reprodução

Outra que cresceu cercada pelo samba. Elisabeth Santos Leal de Carvalho, teve papel fundamental para que alguns artistas e bandas se consolidassem no mundo da música. Revelou Zeca pagodinho, Fundo de Quintal, Arlindo Cruz e outros.  É conhecida como a Madrinha do samba, engajada nos movimentos sociais, políticos e culturais do Brasil, Beth acredita no samba e nos sambistas. Foi homenageada por várias escolas de samba durante a carreira e diz que essa é uma das maiores honras para um artista. Uma das melhores referências.

Vou festejar , Beth Carvalho

Elza Soares

Foto: Reprodução

Nossa “Mulher do fim do Mundo”, nasceu na favela do Rio, filha de mãe lavadeira, pai operário e músico. Foi obrigada a casar aos 12 anos de idade com um homem dez anos mais velho. Mãe muito cedo, pobre e negra. Elza, que em sua primeira apresentação pública disse a Ary Barroso que vinha do mesmo planeta que ele: “Um planeta chamado fome”. Subversiva que foi,  tornou-se rica de alma, seguiu os amigos Caetano e Gil no exílio, se autodenomina como forte feminista e tem a voz de quem vai fazer o mundo sentir. No seu mais recente Álbum, ecoa a voz de quem está sofrendo, de quem está em desespero. Elza é Poder!

Recentemente, ela lançou seu primeiro clipe oficial em formato de cinema da carreira, com a música A Mulher do Fim do Mundo.

Alcione

Foto: Reprodução

Finalizamos com a artista da terra e que não poderia ficar fora dessa lista. É a nossa Marrom, de São Luís, Maranhão. Influenciada pelo pai, já se apresentava no cenário maranhense desde os 12 anos de idade, mas foi no Rio de Janeiro que sua música tomaria os palcos do Brasil e do Mundo. Dona de uma discografia impecável, Alcione impõe respeito e reafirma a importância da voz ativa e essencial de mulheres no samba e na música brasileira.

O samba vai balançar , Alcione

 

E para vocês, quais são os maiores nomes do samba feminino?