O mundo além da esquina da rua

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Elenco do filme “Os Batutinhas”, clássico dos anos 90.

Não sei vocês, mas quando eu era criança existia todo um mundo para ser desbravado e burlar um pouco as leis dos meus pais caracterizava-se como uma verdadeira aventura. Daquelas que tu elaboras o plano com o coleguinha, sai de casa com passos milimetricamente calculados e na sua mente toca uma trilha alá Missão Impossível. Essa trilha:

E o grande plano se configurava no simples: vamos jogar bola?

Bom, fato é que hoje na tão sinistra fase adulta, lembramos dessa fase com uma nostalgia enorme. Das brincadeiras, a inocência das coisas, amizades – umas que perpetuam até hoje – e até um amor juvenil.

Conversando com os amigos sobre essa época, lembramos de várias coisas:

Desenhos animados: TV Colosso e a tão querida TV Manchete resumem bem a aura que existia no mundo da fantasia dos desenhos. (Saudades!).

Jogos: desde os games como Super Mario, Donkey Kong e tantos outros que envolvia o ritual de assoprar a fita para funcionar. Ou a tensão quando você colocava o jogo no PlayStation enquanto carregava. Tipo isso:

Brinquedos: o nostálgico Tazo, que proporcionava o furor quando vinha ele ou o cuidado que existia nas competições e histórias por trás daquele universo e o imponente Master Tazo. Além disso, quem nunca pirava no programa do Gugu aos domingo quando ele falava da linha de brinquedos dele. Ou os bonecos do Power Rangers, Legos, enfim. 

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Se encontrar alguém assim na sua vida, case come ela. Sério! (Foto: Reprodução)

Brincadeiras: Pique-esconde ou esconde-esconde, Gato Mia, Cai no Poço, Rouba Bandeira, Meu mestre mandou, Betty ou tacobol, queimado, amarelinha, brincar de porrada (Fight Club feelings), elástico, STOP e mais um monte.

Filmes: Space Jam, O Jardim Secreto, Os Batutinhas, Lagoa Azul, Os Fantasmas se Divertem, Street Fighter – O Filme, O Pestinha, Elvira e vários outros.


 

A atmosfera que compunha essa fase é de eterna descoberta, curiosidade e aventuras. Fazíamos muitas coisas sem entender absolutamente nada, mas íamos com a convicção de encontrar algum sentido naquilo tudo. Um beijo roubado daquela garota, a briga com o colega que não quis jogar no teu time ou o eterno sono que habitava a gente quando o assunto era levantar cedo para ir a aula.

Eu era milionário, bastava apenas fazer uma aposta valendo uma cifra milionária e ganhar para protagonizar tal feito entre os amigos e, quem sabe, surpreender aquela garota que eu estava afim. Funcionava? Ás vezes! Mas o que importava era a sensação de ser desafiado.

A mesma coisa acontecia quando, ao chegar da escola, almoçava e ficava martelando se depois dos exercícios, eu ia ou jogar bolar na rua ou ficava vendo desenho animado. Em que, além disso, a noite era uma afronta dormir depois das 20h. Por quê? Era MUITO tarde dormir as 22h.

Por falar em afronta, o título que leva esse post, traduz o que venho falando nas linhas acima. Quem nunca brincando na sua rua, por ordens dos pais, sentiu o gosto de aventura ao dobrar a esquina e descobrir um verdadeiro mundo além de lá?

Pois bem, não quero vir com uma reflexão ou algo similar, apenas um toque sobre o grande questionamento sobre se nós perdemos a aventura da infância a medida que mergulhamos em direção a fase adulta. Não que a inocência foi perdida, o amor platônico por alguém deixou o coração mais blindado ou descobriu que além da esquina existe outra rua igual a nossa. Mas sim questiono a respeito da sensação de tomar a frente mesmo das escolhas e consequências de querer viver algo novo em um lugar novo.

Porque melhor que descobrir novos lugares, novas pessoas, novas experiências, é descobrir que você voltou pra casa com um olhar diferente daquela história que nos originou.

É descobrir que existe um mundo além da esquina da rua e na base que criamos.

Sobre a lista lá em cima: quais foram as coisas que mais marcaram sua infância?

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