Pessoas que Inspiram #3: Édison e 30 anos cortando cabelo na feira da Cohab

Fazem mais ou menos uns quatro anos desde que abandonei o cabelo comprido e visual de headbanger, isso porque havia passado no vestibular e adentrado no mercado de trabalho. Fazem mais ou menos quatro anos que topei com o Édison, um homem de voz tímida e baixa, de educação, humildade e, facilmente, possui o arquétipo de “batalhador” pelo simples fato de querer dar o melhor para sua família. E é um pouco da sua história que compartilho hoje no nosso quadro Pessoas que Inspiram.

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Édison e sua aparato de trabalho. (Foto: Jonas Sakamoto)

Édison Sales trabalha em uma barbearia bem próxima da barraca do Cesinha, o personagem que trouxe na vez passada do nosso quadro (clique aqui e confira sua história também). Havia duas pessoas a minha frente e por isso resolvi observar o micro-universo que existe em uma barbearia. E em cerca de 40 minutos constatei: criança gritando, discussões fervorosas e bem humoradas sobre a tabela dos campeonatos brasileiro e local, senhores na calmaria da idade avançada, uma TV ligada com um jornal matinal sobre informações do mundo lá fora. E, por fim, os artesãos dos cortes de cabelo. Além do cuidado que cada um tem com a sua “bancada” e perguntas meio “aleatórias” sobre “fulano” que nunca mais haviam visto.

E no meio de tudo isso, nosso personagem, Édison.

Na faixa dos seus 50 e tantos anos, ele já fora pedreiro, lavrador e cogitou cortar cabelo enquanto um amigo cortava o seu lá na cidade de Santa Rita, no interior do Maranhão e resolveu vir pra São Luís e tentar a vida de Barbeiro.

Há 30 anos eu vim pra cá, era um sábado e já estava aqui no domingo. Nesse meio tempo passei pra vários salões, mas tudo aqui pela região numa ida e vinda entre vários locais. Até que parei nesse aqui“.

Entre um comentário e outro, falei que uma vez fui ao salão que ele trabalhava e não o encontrei. Falei do meu pequeno desespero e ele riu, porém nesse momento tive a sábia ideia de salvar logo o número dele pra evitar passar outro perrengue daquele. hahah

Mas continuando. Comentei minha surpresa sobre as três décadas dele cortando cabelo. Falei que tenho 27 anos e ele soltou: “Ei rapá, meu filho tem 27 anos. Tua idade!“, aí eu: “Sério?“, e ele emendou: “Sabe como eu fazia no interior pra eu cortar? Eu fechava com as empresas, levava o material e durante o sábado e domingo eu arrebentava!“.

Curioso com a lógica dele e surpreso disparei: “Sério mesmo?” e aí ele explicou: “É que eu ganhava dava mais que um salário, se eu fosse empregado. Eu lembro que eu cortava, ainda não era na máquina, era só na tesoura“. Que sacada, Édison.

Aproveitei o gancho do assunto, perguntei pra ele sobre uma lenda urbana do mundo das barbearias e salões, se era mito ou verdade que cortar cabelo com a tesoura agride menos o cabelo do que com a máquina. A resposta do Édison: “O povo diz que sim, mas depende muito do cabelo. Por exemplo, tem cabelo seco, é melhor na máquina. Fica certinho, todo mesmo… Como é pra ficar“.

Diante a informação técnica sobre essa curiosidade, perguntei se ele havia feito algum curso: “Fiz depois!“, espantado perguntei: “Éguas, tu aprendeu sozinho?” e ele: “Porque lá no interior eu cortei o cabelo de um cara lá na rua, na porta dele e ele gostou. Aí comecei. Ele é até falecido“.

Em trinta anos, se passa muita história, muito contraste e muita coisa muda. E é natural pensar em desistir ou trilhar outros caminhos, porém Édison sempre foi convicto do que queria: “Nunca pensei não, é o que sei fazer hoje né!“.

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É possível conhecer muita história neste ambiente. (Foto: Jonas Sakamoto)

Entre vários assuntos que conversamos enquanto ele cortava meu cabelo, chegamos a um que domina qualquer conversa hoje em dia: economia.

Ele tem uma boa clientela e isso se ver em pessoas que todo mês volta para ele com a confiança de que ele faz um bom trabalho. Porém a crise pesou na vida desse trabalhador, nas palavras dele: “As coisas pesaram, o dinheiro não tem mais valor. Mas “nós trabalha” muito ainda. Principalmente eu que, graças a Deus, soube que queria por isso trabalho muito. Mas o dinheiro perdeu o valor, nosso Real…“.


Édison Sales é pai de um casal, o filho que estuda Eletrotécnica, uma filha de 17 anos que já é casada desde os 14 e é estudante. Além de ter um casamento há 18 anos. Sempre educado e calmo, sabe respeitar o cliente caso ele prefira ficar calado ou está disposto emplacar uma conversa sobre qualquer assunto durante o corte de cabelo. E em uma dessas vezes, surgiu o material acima.


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Pessoas que Inspiram é um quadro que tem como objetivo contar histórias de pessoas do cotidiano, que tem uma história de vida e, as vezes, é esmagada com a avalanche de pré-conceitos, olhares, julgamentos, mas, que na verdade, esconde uma história de vida que pode se assemelhar com a minha ou com a sua. É um quadro que visa buscar empatia. Até porque, temos que respeitar cada pessoa que olhamos nas ruas.

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