Ter que manter a vida mesmo sem ter um lugar

Pare por um momento e imagine você vazio. Isso, vazio. Agora, imagine os seus amigos como pontos que irão preencher este corpo vazio. Todos eles. Sim, aqueles que aparecem apenas para pedir dinheiro, aqueles que chama para shows, os que te ligam todo dia, os que te visitam no hospital, os que te acompanham nos funerais, os que te zoam sempre que podem, etc. Isso, imagine todos eles. Conseguiu?

Agora, volte para o corpo vazio. E comece a preencher cada espaço dele com os pontos citados acima. Conseguem perceber que, apesar da distinção entre os pontos, alguns maiores, outros menores, há espaço para todos eles neste campo vazio?

Cena do filme "Submarine".
Cena do filme “Submarine”.

Bom, nem todos enxergam assim. Algumas acham que, por elas se importarem com você, o espaço delas neste campo é garantido. Não é bem assim. Tal qual aprendi, preencher tal espaço requer mais que um simples “se importar”: requer amor e dedicação.

No que consigo lembrar, tenho três amigos (as) que não são muito “amados” pelos meus demais amigos (as). E em um dos momentos que consegui lembrar das últimas semanas, um deles foi alvo fácil destes outros amigos, que fizeram questionamentos como “Por que motivo tu fica andando com esse tipo de gente” e “Tu não gosta mais da gente não é? Só anda com ele(s) agora?”

Tem que correr, correr
Tem que se adaptar
Tem tanta conta e não tem grana pra pagar
Tem tanta gente sem saber como é que vai

Priorizar
Se comportar

Ter que manter a vida mesmo sem ter um lugar
Daqui pra frente o tempo vai poder dizer
Se é na cidade que você tem que viver
Para inventar família, inventar um lar

Ter ou não ter
Ter ou não ter
Ter ou não ter
O tempo todo livre pra você

Tsc tsc. Em muitos desses momentos, fiquei calado. Achei melhor. Até o dia em que decidir falar: “Ao menos eles me procuram, se importam pela minha vida, se fazem presente e, um dos fatores mais importantes, não competem com os demais amigos que tenho”. Ufa. Uma sensação de alívio imediata tomou conta de mim.

Antes, durante boa parte da minha infância, ficava preocupado em saber em qual grupo eu me encaixaria: no dos nerds viciados em anime, música e desenhar; no dos que jogavam futebol todo dia; no dos que dava em cima de qualquer menina que pintasse; ou em um que abarcasse todos esses.

Quanta besteira, né? Não me acho um cara cheio de amigos, mas fico feliz, hoje, em ter atingido um nível de relacionamentos onde cada amizade pode preencher um espaço em mim com sua singularidade – mesmo que, em cada caso, eu não compartilhe das mesmas ideologias, preferências, experiências, e por aí diante.

Bem mais que o sim e o que não
Que valhe a pena estar aqui agora
Tudo tem a sua hora de achar o que procura

Pra que se desesperar o coração verá
Viver é navegar é só deixar fluir
Pra que se desesperar o coração será
É só botar pra correr deixar o barco ir

Nos últimos anos, mais que aprender o valor de uma amizade, eu aprendi o quão importante é você buscar várias formas de saber valorizá-la e dedicar-se à ela(s). O corpo vazio do início do texto, ao menos na minha vida, nunca mais existiu. Ele corre esse risco de esvaziar? Sim, todo dia. Basta você (buscar) saber como preenchê-lo.

 

P.s: as canções citadas acima foram, respectivamente, Dois Cafés, de Tulipa Ruiz (com participação de Lulu Santos) e Deixar o Barco Ir, de Dani Black.

P.s2: o filme citado nas imagens é Submarine, de 2010.