Série de fotos mostra a experiência de andar pelo Mercado do Peixe nas primeiras horas do dia

Enquanto a gente tomava café na banquinha duma senhora muito simpática na Praça da Deodoro, pensava em como iria colocar aquelas últimas horas em texto, me virei pro Bruno e perguntei: “Como eu começo a escrever?”, ele, enfaticamente, respondeu: “Bom… ‘fui ao mercado do peixe às 4 da manhã’ seria um ótimo começo.” Eu ri. Às vezes esquecemos que para começar qualquer coisa é muito simples: basta ir pelo começo. Redundante, mas certeiro. 


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Já imaginou como é o universo dentro de um mercado de peixes? O Mercado do Peixe de São Luís, capital do Maranhão, fica localizado na avenida Senador Vitórino Freire, próximo ao Centro Histórico. E foi lá que a Ingrid Barros, juntamente com o escritor Bruno Azevêdo foram ver como funciona nas primeiras horas do dia. (Fotos: Ingrid Barros)

Fui ao Mercado do Peixe às 4 da manhã, num sábado de junho. Para falar a verdade, saímos da casa do Bruno por volta das 4:30h. O táxi atrasou. Estávamos sem dinheiro. Banco ainda fechado. Pagamos gasolina no débito. Para mim, estar ali foi uma série de mini desafios: 18:00h, fim de expediente. Correr para o aniversário de Samuel, 1 ano, fotos sob minha responsabilidade. Não tinha como ir. Até que tive como ir. Cheguei atrasada. Festa linda. Fotos feitas. Como eu volto para casa agora? Tenho que ir para o Amaral. Todos já foram. “Ei tu vais por onde? Beleza. Vou contigo! ” “Carol tu ainda está onde? Opa, tô chegando em casa. Vou contigo! ”. Chego no Amaral. Deixa a câmara em um carro. Tira. Guarda em outro carro. Ele já vai. Pega tudo de novo e coloca nas costas. Que noite de energia bonita. Tenho que ir para casa do Bruno. Não sei como vou. Fui conversar. Perco a primeira carona. Descolo a segunda. Não sei se vou para o Vinhais ou para o São Francisco. No caminho, decido de última: virar à esquerda, rua 1, próximo ao Tio Tomate. Tô sem dormir desde 7 horas da manhã do dia anterior. Subo no apartamento do Bruno. Música. Café. Colagem. Beiju. Fomos ao Mercado do Peixe às 4:30 da manhã.

Embora eu tivesse levado a minha DLSR, escolhi fazer as fotos com o celular. Era minha primeira vez ali, eu não queria assustar, nem tirar a naturalidade do local. O celular tem essa vantagem, deixa a coisa toda muito mais intimista. Logo eu, que odeio sentir que minha fotografia está incomodando alguém (o que me faz deixar muitos projetos no papel). E o que me fez num primeiro momento ficar um pouco tímida ali. Até que saiu a primeira foto. “Posso tirar uma de vocês?

(Descanso. Foto: Ingrid Barros)
(Descanso. Foto: Ingrid Barros)

Logo em seguida, avistei uma senhora que nos observava chegar. Sua roupa de trabalho, seu rosto de 51 anos trabalhando no mercado. Parecia que já esperava e que queria ser fotografada. “Posso tirar uma foto?” Balançou a cabeça em “Sim” e fez uma dessas poses que a gente chama de “espontaneidade ensaiada”. Penso em todos esses anos dela e imaginei os outros de cada um ali. Uma verdadeira comunidade invisível aos demais da cidade. Perguntei seu nome. Duas vezes. Esqueci. Me arrependo de não ter parado para ouvir bem mais que isso.

(Foto: Ingrid Barros)
(Foto: Ingrid Barros)

Cada qual com seu espaço, sua banca e seus produtos. Era engraçada a reação deles. Havia os tímidos, mas havia aqueles que me chamavam para fazer as fotos. Sorrisos e piadas com os parceiros de vizinhança. Alguns posavam com seus grandes pescados. Acredito que a estratégia era fazer a propaganda de seu comércio. Outros me perguntavam “Quer dizer que tu só quer tirar foto dos grandão? ”, “Claro que não!”, respondi. E click no peixe pequeno.

Um clássico. (Foto: Ingrid Barros)
Um clássico. (Foto: Ingrid Barros)
(Foto: Ingrid Barros)
(Foto: Ingrid Barros)

Desde o início, eu destoava claramente do local. Uma menina, de macacão, mochila floral azul e um celular na mão (imagina se fosse a câmera). Incansáveis foram as perguntas de “Você é de onde?”. Parecia que o interesse em tirar fotos de pessoas comuns, no seu trabalho, em um mercado de “água suja e cheiro de peixe”, não poderia ser de alguém dali e tão comum quanto todos nós somos. Em uma delas respondi “Meu amigo, moro aqui, mas sou nascida e criada no interior do Maranhão, lá em Pinheiro”, na sincera tentativa de que eles não me vissem como alguém diferente.

O Bruno não. Ele se camuflava. Embora ele também chamasse atenção devido o celular, seu jeito de lidar sempre parece mesclar com o local. Afinal, para mim, ele é isso. Feiras de bairro, mercados, ostreiros, vendedores ambulantes, bares, bregas e reggae. Tudo o que ferve, que é vida, que é ritmo, frenético, que madruga e que não dorme.

(Foto: Ingrid Barros)
(Foto: Ingrid Barros)
(Foto: Bruno Azevedo)
(Foto: Bruno Azevêdo)

A curiosidade em saber onde as fotos estariam publicadas, também, era unânime. Meio que se relacionava com o fato de acharem que talvez eu fosse alguém importante. Em verdade, não sabia muito que responder. Estar ali para mim era algo mais pessoal do que de fato um material para uma publicação. A coisa toda de me encontrar com alguém que nunca tivera um contato próximo antes, de madrugada, para fotografar, em um mercado, depois de uma noite cheia, era extremamente atrativo e único. Por fim, respondia que estaria em nossas páginas pessoais e dizia nossos nomes. Para uma menina falei do site que, para minha surpresa, respondeu “Acho que já ouvi falar! ”.

Enquanto nos distraíamos com as fotos e conversas, aos poucos a paisagem se modificava. O céu começava a clarear. A forte luz branca das lâmpadas dava espaço à de um sol tímido que surgia entre as nuvens. Vamos comprar uma cerveja?, perguntou o Bruno. Na volta, jornaleiros no sinal. O fluxo de ônibus começa a aumentar. Sábado. Para muitos o dia começava ali agora. Para outros talvez o dia só começasse depois das 10 da manhã. Mas para tantos o dia já havia começado desde a madrugada.

As primeiras notícias. (Foto: Ingrid Barros)
As primeiras notícias. (Foto: Ingrid Barros)

Mais alguns cliques e hora de ir. Para aquele dia já estava suficiente. Talvez a gente continue em uma próxima. E assim espero colher histórias, ouvir e entender mais aquele universo. Trabalho como este tem disso, não dá para absorver tudo de uma vez. Saímos do Mercado do Peixe e caminhamos até a Praça da Deodoro. O Bruno disse que sempre faz essas andanças. Já eu, era a primeira vez fazendo esse caminho a pé. Em minha mente vinha aquela pergunta “Qual foi a última vez que fizestes algo pela primeira vez?”. Sensações inéditas, sempre as melhores.

Poucas pessoas na avenida, no Reviver, na Rua Grande. Transição entre os remanescentes da madrugada e os primeiros camelôs se organizando. Luz solar, agora de 7h da manhã, batendo nos casarões. Reparo nos detalhes de cada um deles, que talvez eu não tivesse reparado antes. Não daquele jeito. A luz e o vazio da manhã deixavam tudo mais bonito, mas não exatamente apenas bonito, era diferente. E eu, 24 horas sem dormir. Meu corpo continuava elétrico, querendo guardar cada cena daquele passeio. Viver a cidade nos detalhes, ir ao encontro do simples. Era exatamente isso. Obrigada pelo convite, Bruno. Aos leitores, é esse o meu recado.

Paramos na praça para um café da manhã. Café e bolo de goma. A moça pergunta de que faculdade éramos. Eu olho para o Bruno. Rimos. “Eu já sou é velho, só tenho cara de menino! ”, respondeu ele. Dissemos nossa formação. Ela conta um pouco sobre seu filho. Mulher gentil. 8 horas da manhã, hora de ir para casa. Decido voltar para casa do Bruno para dormir um pouco. 40 minutos foi o que consegui. Levantei. Ajudei a pintar uns móveis entre conversas, café e música. Quase 11h da manhã. Nada de casa, hora de ir para a comunidade do Cajueiro. Mas esse é outro projeto que depois eu conto aqui.


Por fim, deixo mais fotos dessa experiência:

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